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domingo, 2 de novembro de 2008

A Maratona


Com a maratona da campanha presidencial a chegar ao fim, logo mais as ruas de Nova Iorque vão - metáforas de atletismo à parte - ser palco dos 42 Km mais famosos do planeta: a New York Marathon.

Com 50 mil atletas vindos de 100 países é o maior acontecimento desportivo do mundo em número de participantes. A organização rejeita ainda, todos os anos, meio milhão de pedidos de inscrição.

A cidade de 8 milhões de habitantes vibra num entusiasmo que fala todas as línguas, português incluído. Um desses entusiastas, o luso-americano Manuel Lopes, lembra à Renascença que a maior dificuldade para os atletas europeus é a diferença horária. A maratona disputa-se quando na Europa são 5 da tarde.

Correndo, ou participar caminhando, a Maratona de Nova Iorque já se converteu num ritual de determinado estilo de vida envolvendo um enorme desafio pessoal.

A verdade é que atravessar os míticos bairros nova-iorquinos de Queens, Brooklyn, Bronx e chegar a Manhattan, depois de cruzar a ponte de Queens, é de cortar a respiração que, 42 Km depois, já estará tão ofegante como a de Obama ou McCain.

José Bastos, nos Estados Unidos

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Tudo acaba à Terça-Feira

Não foi o Haloween, esse acontecimento de tradição pagã, a congelar a campanha para as presidenciais na atenção do eleitor norte-americano, no ínicio do fim de semana em que McCain tentará encurtar distâncias.

Ao contrário, Obama surgiu mais articulado que nunca. O senador negro elencou a Wolf Blitzer, com meridiana clareza, as suas prioridades se, na terça-feira, for eleito.

No topo, a estabilização dos mercados financeiros. Depois, autonomia energética dos Estados Unidos. Obama garante que vai criar 5 milhões green-jobs, empregos na área das energias renováveis. A seguir, virá a reforma do sistema de saúde, o enquadramento fiscal na classe média e, por último, a encerrar o "top 5" das suas prioridades, a reforma do sistema educativo.

De onde virá o dinheiro? Obama explica depois.

Já na frente republicana, McCain concentra-se nos Estados onde há dúvidas quanto ao vencedor, os chamados swing-states.

Começa no Ohio, onde está 8 pontos atrás de Obama. Nenhum republicano jamais chegou à Casa Branca sem antes vencer no Ohio.

Este sábado, McCain lidera comícios na Virginia e Pensylvania, onde Obama também comanda e divide esforços com a governadora do Alaska.

Sarah Palin passará o sábado e o domingo, sofrendo a díspar amplitude térmica da tropical Florida às gélidas Carolina do Norte e Virginia.

Três dias em cheio para, como há 2 séculos neste país, tudo acabar à Terça-Feira.

José Bastos, nos Estados Unidos

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

"Até tu, McCain?"

Atacar, ainda mais, Bush.

Esta pode ser a estratégia para os últimos dias de campanha republicana para tentar inverter a vantagem de Obama nas sondagens.

A cada oportunidade, McCain retoma a linha adoptada no último debate em Long Island com o "Eu não sou Bush!". Num anúncio televisivo, o senador do Arizona olha para o eleitor e dispara uma pergunta que bem poderia sair da boca de Obama "Os últimos oito anos não correram lá muito bem, pois não?". Pois não.

É verdade que, há oito anos, quando enfrentava Bush na corrida das primárias, McCain já criticava as opções económicas de George Walker, mas agora tem de deixar bem claro que há muito entrou em ruptura com a equipa económica da Casa Branca.

O principal ponto é a crise financeira, o tema que será decisivo no momento de decidir o voto. McCain critica a forma como Bush enfrentou a crise. Ou seja: assume que a Casa Branca está mais preocupada em proteger os bancos do que evitar que os norte-americanos percam as casas por não pagar as prestações dos empréstimos.

Os republicanos reconhecem que, no que resta de campanha, terão de tentar apagar a tese de Obama de que McCain é um clone de Bush.

O problema para o senador do Arizona é o "histórico" das votações do Congresso: McCain votou em 90% das vezes ao lado de Bush.

Da Sala Oval, a esta hora, até se justificava um "Até tu McCain?"

José Bastos, nos Estados Unidos

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Sean Hannity

Neste ciclo eleitoral qualquer candidato republicano teria iniciado a campanha com a desvantagem de oito anos consecutivos de um republicano na Casa Branca.

Por si só, o facto poderia alimentar desejos de mudança, não seria sequer necessário que o actual presidente fosse particularmente impopular.

Todos os momentos positivos de GWB (sim, também os houve: derrota da Al Qaeda, desnuclearização da Libia, Coreia do Norte e Iraque) estão esquecidos e é culpado de todos os males do mundo.

É verdade que a política fiscal de Bush produziu deficits excessivos, mas foi Bill Clinton que criou condições para a entrada dos clientes subprime no crédito hipotecário.

A somar a este lastro, McCain teve, desde o Verão, de enfrentar o último e decisivo inimigo: a desaceleração económica a caminho da recessão. Já este mês a crise económica de Outubro sepultou boa parte do sistema financeiro e afundou a economia real, a que toca nos bolsos do eleitor americano.

Não adianta avaliar se todos estes danos para McCain são desproporcionados devido à presunção da culpa da administração republicana. As desvantagens estão aí e, nesta altura, parecem ser insuperáveis.

Mesmo que Sean Hannity, estrela da FOX NEWS, o canal direito da estereofonia televisiva norte-americana, tenha dedicado boa parte do seu último programa a elencar razões para evitar Obama.

A saber: não tem experiência, frágil em política externa, aumentará impostos e despesa pública, se ganhar leva a uma supermaioria democrata no Congresso e Casa Branca, muda de opinião facilmente, Joe Biden não é de confiança, a imprensa confere-lhe uma aura messiânica e, last but not the least, é amigo de esquerdistas e palestinianos.

Sean Hannity chega tarde.

José Bastos, nos Estados Unidos

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Mudar de atitude

Momentos históricos extraordinários requerem medidas extraordinárias e a crise do sistema financeiro internacional continua, provavelmente, a exigir ainda mais decisões extraordinárias, depois do fracasso das tentativas de conter os efeitos explosão da borbulha do subprime, aqui nos Estados Unidos.

A pista é lançada por um gestor português, Carlos Pinho, vice-presidente do CrownBank, com décadas de experiência no sector financeiro norte-americano.

Em entrevista à Renascença, Carlos Pinho reconhece que levará tempo até que possa ser avaliado o custo total de toda esta operação para o contribuinte norte-americano, mas a mensagem do gestor é de total confiança na solvência futura do sistema.

O que aconteceu não foi, afinal, uma falha de mercado, mas sim, a acção concertada do fracasso da política monetária excessivamente líquida, outra falha de uma política de regulação financeira ineficaz, porque complacente, e outro fracasso ainda da política de supervisão.

O contribuinte norte-americano e, por extensão, em tempos de globalização - o contribuinte global, pagará uma factura elevada que pode ser calculada em vários pontos do PIB, provavelmente, durante uma década, mas pode sair mais caro deixar o sistema cair e precipitar o mundo numa recessão económica sem precedentes.

Não se trata mais de socializar perdas privadas, mas como, acertadamente, refere Carlos Pinho, de permitir que o sistema financeiro possa voltar a funcionar com normalidade e confiança.

Já só vale mudar de atitude.

José Bastos, nos Estados Unidos

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Ohio: Será que interessa?

Uma das vozes mais lúcidas da América referia no écran da MSNBC que, apesar de tanto se ter falado do Ohio, pode ser que esse estado não conte para coisa nenhuma. Ou seja, a dimensão do descalabro eleitoral de John McCain será de tal magnitude que Obama se dará ao luxo de dispensar estados.

Nas contas da média das sondagens da RealClear Politics, Obama vence no Colégio Eleitoral por 364 a 174. Para a Casa Branca são apenas necessários 270 e, nesse caso, Obama não precisa do Ohio. Mais: não necessita sequer da Florida. Será o que a voz lúcida (C. Todd, editor de política da MSNBC) chamava de estratégia “Virginia-Colorado” para vencer a América.

A Newsweek desta semana publica a “milionésima” capa, no que vai de ano, com a foto de Obama e o titulo: “A América conservadora: como Obama pode governar uma nação de centro-direita”. O exemplo de Todd não vale para criticar a revista – que desde Janeiro fez o que pôde para eleger Obama – mas para alavancar a tese de que se dá por garantida a vitória do democrata a 4 de Novembro.

A verdadeira preocupação da América conservadora será a de não “perder por muitos”. “Perder por muitos”, no léxico do ciclo eleitoral em curso, significa que os democratas podem ampliar a sua vantagem na Câmara de Representantes e uma maioria significativa no Senado.

Se as previsões baterem certo não deixará de ser irónico que num momento de incerteza económica, no mínimo, ou de fim de ciclo, no máximo, a “nação conservadora” se coloque nas mãos dos democratas que abomina, entre outras razões, pela subida de impostos. E, claro, seria curioso, Obama descartar o mesmo Ohio que deu a presidência em 2004 aos republicanos.

José Bastos

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Obama relaciona economia com segurança nacional

A segurança nacional na lógica da (nula) experiência em política externa é o ponto mais débil de Obama junto no eleitorado como lembram, uma e outra vez, as sondagens. Ao contrário, a crise financeira é a razão pela qual as consultas de opinião antecipam uma vitória clara a 4 de Novembro do senador do Illinois.

Com estes dados na mesa até a um mediano estratega de campanha ocorreria somar um mais um e ligar os pontos para evitar surpresas desagradáveis, a poucos dias das eleições.

Assim, antes da suspensão da campanha para visitar a avó no Hawai, Obama aludiu, na Virginia, à segurança nacional. Mas, helas, associa segurança à crise económica. “Ouvimos falar de dois debates, um de segurança nacional, outro de economia, mas é uma separação que não faz sentido. Não podemos ter mais um presidente que ignore os fundamentos da economia ao mesmo tempo que atinge deficits records para estar no Iraque” disse Obama.

O ângulo de Obama para a política externa é diferente de McCain: defende o multilateralismo frente ao isolamento dos últimos anos e argumenta que a verdadeira frente da guerra contra o terror está no Afeganistão e não no Iraque, sugerindo ainda a diplomacia conjunta para desafios como o programa nuclear iraniano.

O cenário da viragem foi o apropriado: Obama reunia com um grupo de generais reformados, não perdendo a oportunidade de relembrar o recente apoio de Colin Powell.

O que Obama não explicou aos generais, ou aos eleitores, é como planeia retirar do Iraque e que o governo de Bagdad assuma o que ainda não conseguiu: a segurança do país.

Os pormenores ficam para quando for presidente. Agora é, apenas, o princípio político: “Change!”.

José Bastos

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